Janete Clair: a rainha das telenovelas brasileiras

FREDERICO MORIARTY – Jenete Emmer nasceu em 1925 nas Minas Gerais. Para ajudar a família, aos 14 anos fazia bico de locutora de rádio. Depois trabalhou em farmácia e de datilógrafa. Voltou para as rádios. Aos 25 anos casou-se com o escritor Dias Gomes. Por ser comunista, Gomes foi perseguido e o casal mudou-se para o Rio no início dos anos 60. Para conseguirem mais dinheiro, Dias Gomes, reconhecendo a riqueza literária da mulher, a incentiva e ela começa a escrever estórias, rapidamente emplaca tramas para radionovelas (os primeiros passos da sua maestria posterior). Corrige o erro do cartório e muda o nome para Janete. O diretor Gabus Mendes a aconselha a escolher outro sobrenome, afinal o marido já era bem conhecido ( nessa época o nome de certidão era Jenete Emmer Dias Gomes). A sugestão: por ser fã de ” Claire de Lune” de Debussy, ela adotaria o primeiro nome. Virou Janete Clair. Em 1967, ainda em terceiro na audiência geral ( atrás da Tupi e da Record) a Globo a contrata às pressas. A novela Anastácia era um horror. A audiência não passava dos 10% e pra piorar, a estória contava com mais de 200 personagens. Janete Clair sabia que as narrativas tem de ser lineares e que o número de personagens deve ser pequeno. Boa parte dos brasileiros eram simples, pouco estudados. Gostavam de uma história bem contada, com começo, meio e fim, com poucos personagens principais e alguns secundários. E muitos intelectuais fingem que não é disso que gostam. Um brasileiro que se pretendesse a intelectual, culto, educado e de gosto refinado, não poderia gostar de 3 coisas entre os anos 70 e 90: futebol, carnaval e novela. Ou seja, para ser intelectual era necessário, antes de tudo, ser um chato.

Fonte: Pinterest

Janete Clair assumiu Anastácia e fez duas mudanças simples: Na primeira delas, um terremoto destrói a ilha em que se passava a estória. A Globo conseguiu enxugar o elenco de mais de 200 para 40 e poucos artistas. A segunda foi transportar a trama para 20 anos depois do terremoto com novas estórias. Pronto, a Globo economizou e a audiência cresceu. Janete Clair ganhou o direito de escrever uma novela ( sempre com sucesso de público) atrás da outra. Ficou na Globo até 16 de novembro de 1983, quando um câncer do intestino lhe tirou precocemente a vida. O Brasil chorou. Não poderíamos mais esperar com ansiedade a ” nova novela de Janete Clair”. No total da carreira, ela escreveu mais de 20 radionovelas e 31 telenovelas, 1 romance e uma fotonovela com Francisco Cuoco, seu galã preferido. Criou personagens inesquecíveis e toda uma escola de telenovelas, seguidas até hoje por Gloria Perez, Gilberto Braga ( os que assumem) e muitos outros, pois com raríssimas exceções, as novelas ainda trazem o modelo Janete Clair. Curioso que, em geral, muitas das estórias diferentes de sucesso foram redigidas pelo seu marido Dias Gomes ( O Bem Amado e Roque Santeiro) ou por outro “comunista” nas adaptações de Jorge Amado ( Gabriela e Tieta).

As Novelas Principais: Irmãos Coragem.
O primeiro sucesso vem com Irmãos Coragem. “Na fictícia cidade de Coroado, no interior de Goiás, três irmãos se insurgem contra o poder do latifundiário Pedro Barros (Gilberto Martinho), que controla o comércio de diamantes na região. João (Tarcísio Meira), Jerônimo (Cláudio Cavalcanti) e Duda (Cláudio Marzo) são os irmãos Coragem, filhos de Sebastião (Antônio Victor) e Sinhana (Zilka Sallaberry). Exibida no horário das 20h, a trama, que misturava faroeste com futebol, temperada com as conturbadas histórias de amor protagonizadas por Tarcísio Meira e Glória Menezes (Lara/Diana/Márcia); Cláudio Marzo e Regina Duarte (Ritinha); e Cláudio Cavalcanti e Lúcia Alves (Potira)”. ( extraído da página http://www.memoriaglobo.globo.com).

Escute o tema de João Coragem abaixo:

Para o papel de Duda, Janete contou com a ajuda de outro comunista amigo de Dias Gomes, o técnico João Saldanha. Ela também se preocupava com o fato da novela ser um “faroeste”, mas ao contrário, isso fez crescer a audiência.

Arquivo Memória da Rede Globo

Selva de Pedra (1973)

“A ascensão o jovem interiorano Cristiano Vilhena (Francisco Cuoco), que, seduzido pelo poder, põe em risco sua felicidade ao lado da mulher, Simone (Regina Duarte), é o mote da trama. A ambição aproxima o protagonista do vilão Miro (Carlos Vereza), capaz de tudo para eliminar qualquer obstáculo à ascensão social de Cristiano. Miro sugere até mesmo a morte de Simone. Após muitos contratempos, o casal consegue se entender e ser feliz.”( extraído da página http://www.memoriaglobo.globo.com)

Arquivo Memória da Rede Globo

No capítulo 132, quando Regina Duarte revela que ela era Simone e não uma irmã gêmea, artista plástica famosa na Europa, os aparelhos do Ibope no Rio e em São Paulo marcaram 100%. Ou seja, naquele dia, todos os televisores ligados no Brasil assistiam a novela da Rede Globo. Situação semelhante ocorreu em 1978 na novela O Astro, no capítulo final em que descobrimos quem matou Salomão Ayala. Autora dessa novela? Janete Clair

Pecado Capital ( 1975)

 “Carlão (Francisco Cuoco) é um motorista de táxi que vive um drama de consciência depois que assaltantes de banco em fuga esquecem em seu carro uma mala com o dinheiro roubado: não sabe se a entrega à polícia, correndo o risco de ser acusado de cúmplice do roubo, ou se usa o dinheiro para resolver seus problemas. Ele é noivo de Lucinha (Betty Faria), com quem tem uma relação apaixonada, mas tumultuada por conta do seu machismo. Lucinha trabalha na fábrica de confecções do industrial Salviano Lisboa (Lima Duarte). Escolhida para estrelar uma campanha publicitária, ela começa a fazer sucesso como modelo. Sua circulação por ambientes sofisticados, afastam-na da realidade do subúrbio e ela se envolve com Salviano. Carlão não se dá conta de que não é o dinheiro que o separa de seu amor. E, para provar à ex-namorada que é capaz de competir com Salviano, ele compra uma frota de táxis e dá início a sua ascensão social.” ( extraído do site http://www.memoriaglobo.globo.com)

Abaixo, uma das cenas mais tristes e marcantes da teledramaturgia brasileira. O último capítulo de Pecado Capital, com a música tema de Paulinho da Viola ao fundo:

O Astro(1978)

” A história se estrutura em torno da ascensão econômica e social do personagem Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco). No início da história, ele e o amigo Neco (Flávio Migliaccio) aplicam um golpe na paróquia de Guariba Grande, uma pequena cidade do interior. Mas Neco engana Herculano e foge com o dinheiro roubado, deixando o companheiro nas mãos da polícia. Herculano consegue fugir da cadeia e some da cidade, abandonando a mulher, Doralice (Cleyde Blota), e o filho, Alan (Luiz Carlos Mendonça). Tempos depois, Herculano trabalha como mágico e vidente em uma churrascaria quando conhece o jovem Márcio (Tony Ramos), filho do industrial libanês Salomão Hayala (Dionísio Azevedo). Márcio vive em conflito com o pai por não querer assumir seu lugar na empresa da família. O jovem decide ocupar seu lugar na diretoria da empresa, levando consigo o novo amigo. O encontro com o poderoso empresário muda a vida de Herculano, que passa a exercer influência sobre todos os membros do clã.”

( extraído do site http://www.memoriaglobo.globo.com)

Muitas das novelas foram refilmadas pela Globo nos anos 90 pra frente. Nenhuma fez sucesso. O elenco em geral era ruim. A estória não cabia mais noutro tempo. Mas o principal era, não foi Janete Clair que as reescreveu.

Arquivo Memória da Rede Globo

As Teias das Tramas

As telenovelas da Globo podem ser divididas em antes e depois de Janete Clair. Os níveis de audiência passaram dos tradicionais 20 a 30% para 50 a 70% ( isso até hoje). ” Dona das 8″ ( Nos anos 70 e 80 a grade horária da Globo ditava a vida da maioria dos brasileiros. Os picos eram o Jornal Nacional das 20h às 20h30 e a novela principal das 20h30 às 21h30. Daí a gíria ” novela das 8″. Depois era botar as crianças para dormir), Janete Clair foi além. Suas novelas batiam de 70 a 90% de aparelhos ligados. Seis novelas dela entre 1970 e 1980 bateram 90% de audiência na última semana. O país vivia as novelas, respirava as tramas transformava os personagens em pessoas de carne e osso. Carlos Vereza era odiado nas ruas quando fez Miro, o vilão inescrupuloso de Selva de Pedra. Francisco Cuoco era o Carlão redivivo. A namoradinha do Brasil só podia ser Regina Duarte, ela foi a mocinha de quase todas as histórias de Janete Clair. Tony Ramos era o jovem idealista e de bons sentimentos que todos nós almejavámos. Quando surgiu o paranormal portorriquenho Walter Mercado no final dos anos 80, de turbante, roupão colorido, olhos pintados, tínhamos certeza: Herculano Quintanilha existia! Janete Clair seguia alguns modelos que lhe garantiam sucesso. São eles:

Dramas Urbanos: as novelas sempre ocorriam na cidade. O campo, em geral, era o lugar da fuga em direção a uma vida melhor ou a um novo destino, com exceção do seu primeiro sucesso, o faroeste cabloco Irmãos Coragem;

As Transformações Urbanas: muitas tramas principais e a maioria das paralelas mostra um Rio de Janeiro Antigo ( principal cidade das estórias) em conflito com a urbanização e modernização da Capital;

Tramas Paralelas: o núcleo central cansava o teleouvinte. Ela criava 4 a 5 tramas paralelas. Estórias de tensão, de amor, de pessoas que às vezes tinham laços com a trama central, mas isso não era obrigatório. Isso lhe dava fôlego para levar o núcleo central até o fim ( Selva de Pedra teve 232 capítulos!). Aos poucos, Janete Clair introduzia as tramas paralelas, formadas cada uma delas por 4 a 8 personagens. Caso o público gostasse de uma delas, a autora lhe dava mais espaço. As de menor público apareciam eventualmente. Esse núcleo intermediário contava com 20 a 25 personagens. Assim como nas tramas centrais, existe aqui o jogo de poder, o amor, as traições, as infidelidades amorosas;

Trama Central: sempre um triângulo amoroso e uma luta do bem contra o mal. Em geral são duas famílias em conflito. O terceiro personagem é o que vai reavivar as tensões. Aqui temos mais 20 personagens. Uma boa novela trazia então de 40 a 50 personagens no total. Por ser uma estória de costumes, as pessoas amam, são parceiras, casam, tem filhos, mas também traem, são infiéis, são inescrupulosas, violam as regras. Engraçado é observar que esses temas polêmicos incomodam muito mais agora, passados quase 50 anos do que na época. O sexo era apenas sexo, hoje é um cerimonial demoníaco;

As Pessoas são boas ou más: não há ricos x pobres. Trabalhadores x empresários. A política não é central. Janete Clair não era de esquerda como o marido Dias Gomes. Escrevia, como ninguém, comédia de costumes.

Outro Sucesso de Janete Clair

Vilões: toda trama tem personagens maquiavélicos. Roubam, matam, enganam, são pérfidos. E quanto mais maldades faziam, mais o público gostava. Chegavam às beiras do inverossímil. Mas aí estava a riqueza e a crítica da autora. Sabemos que estas pessoas existem, sabemos que elas obtém fama, poder e dinheiro na vida real. Janete Clair nos vingava, pq ao contrário da vida real, nas novelas, eles sempre eram punidos. Os brasileiros passavam meses torcendo pelo enforcamento do vilão. É, mesmo hoje, é o único lugar em que isso acontece. As novelas eram nosso bode expiatório;

Mocinho e mocinha: personagens que nos inpiravam. Sentimentos nobres, comportamentos éticos. Ou mesmo, os redimidos. Carlão foi se tornando alguém desprezível, mas tem uma virada no fim. Arrepende-se, vende os táxis e tenta devolver o dinheiro deixado na mala. Janete Clair não queria sua morte, foi desejo do diretor Daniel Filho. A queda, como um Cristo, foi das cenas mais marcantes da TV brasileira.

Nada melhor do que ouvir a autora:

” Eu acho que eu entendo um pouco da psicologia do povo, eu sei o que é que ele gostaria de sentir naquele momento, se é uma emoção de alegria, se é uma emoção de tristeza, se é uma emoção de drama… Então, eu acho que, você sabendo dosar isso bem, eu não digo que seja uma fórmula pra se atingir o sucesso, mas é uma maneira de se atingir o grande público. É uma comunicação assim… de gente para gente, de emoção para emoção. Eu acho que é isso, não pode ser outra coisa, eu não estudei pra isso! É uma intuição. É um sexto sentido.”

(Janete Clair em depoimento ao Museu da Imagem e do Som)

Otimismo: a mensagem final é sempre otimista. Lute, tenha princípios, acredite nas boas intenções. O mal uma hora cessará. A cena final de Irmãos Coragem é um primor: João Coragem vê o desespero da população e do padre com a destruição de tudo. Sobrou o sino da igreja e isso basta para ele levantar o ânimo de todos para reconstruir a cidade, mas não a mesma cidade e sim uma melhor. A vida dá tanta porrada na gente. Às vezes pensamos que tudo foi destruído e não há mais esperança. Janete Clair falava pra 100 milhões de brasileiros ” Levanta a cabeça que a luta continua”. Acordávamos no dia seguinte do último capítulo com um enxada imaginária na mão e cantando o tema de João Coragem ( está lá, no quadro da novela para você ouvir);

Luta até o Fim: A disputa entre o bem e o mal tem de ir até o último capítulo. As tramas tem de trazer violência, mortes, golpes e muitas reviravoltas. O bem parece que venceu, mas logo vem uma nova complicação. O mal estava apenas se recuperando, adquirindo forças e elaborando uma nova estratégia. Noutras vezes acreditamos que a vilania venceu. Numa novela de 180 capítulos isso ocorre a cada 30 capítulos. Até a derrota final e definitiva do Mal e o reestabelecimento da ordem no mundo;

Um capítulo nunca termina: Jamais. Repito, jamais um capítulo termina. Se alguém começou uma briga, ela se resolve no dia seguinte. Caso alguém tasque fogo numa casa e o mocinho comece a queimar, só no capitulo seguinte saberemos se ele vai estar vivo. Janete Clair segue o modelo de Sherazade em Mil e Uma Noites. Conta tudo, menos o essencial;

Último Capítulo: É a Vitória do bem. Todas as tramas paralelas tem de estar resolvidas também ( algumas se resolvem na última semana). Tudo é restabelecido, mas sem essa coisa piegas das novelas atuais como se fosse uma ” festa de encerramento”. Quanto mais surpreendente for o final, melhor.

De Triste basta a vida: a maioria dos brasileiros trabalha arduamente, sofre com a miséria, com o desemprego, a violência. Muitos acabaram de chegar cansados em casa. Tempo de ligar a TV, ver os problemas no Jornal Nacional, jantar e depois assistir a “novela das oito”. Somos um país ágrafo. A maioria não lê. Nossos cinemas são com filmes dublados. Ali, no sofá, com a família reunida, queremos ver uma realidade adocicada. Um veneno nas doses certas. Precisamos assistir algo que nos dê ânimo, que nos permita acreditar no futuro. Um futuro com mocinhos, mocinhas, com as pessoas de mesa farta e indo trabalhar alegres. E, principalmente, num mundo em que os vilões terminem por pagar todos os seus pecados capitais.

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