Aos olhos perplexos do mundo um Verde Brasil vai se tornando cinza

Sandra Nascimento

No Brasil, diferente do lendário bem-te-vi que vendo o incêndio na floresta tentou, confiante, apagar o fogo levando água no bico, o cidadão comum se sente um tanto impotente diante das tomadas de decisões do governo federal, que, conivente com os incêndios, investe nas ações comprometidas com os setores mais atrasados do agronegócio. Somente as pressões internas e externas dos investidores nacionais e internacionais, que se manifestaram ultimamente em favor da sustentabilidade e preservação do meio ambiente, podem fazer recuar a política de desmatamentos e queimadas tão presentes nas florestas e matas nativas do país. Longe de poder contemplar o luar depois de apagar o incêndio, o governo brasileiro, ao contrário dos animais da fábula do fogo, segue nas trilhas das grandes tragédias ecológicas e, entre cinzas e pelejas diplomáticas, constrói os absurdos cenários de desrespeito à natureza.

Um país em chamas

Há um ano, exatamente em 19 de agosto de 2019, por volta das 15h30, de muitas cidades foram avistadas enormes nuvens escuras encobrindo o céu do Brasil. No estado de São Paulo a sensação era de que o dia estava virando noite. O fenômeno, decorrente de nuvens de fumaças provenientes de queimadas vindas no Norte do país, mais precisamente da Amazônia, foi notícia na imprensa mundial e viralizou nas redes sociais.

Naquela segunda-feira fatídica o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tinha conseguido detectar 813 focos de queimadas sobre o bioma da Amazônia.

Nos dias que se seguiram, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou que, de janeiro até o domingo 18, só no estado do Amazonas, já tinham sido registrados 71.497 focos de incêndios contra 39.194 no primeiro semestre de 2018. Isso indicava uma alta de 82% de um ano para outro.

Desde então, o estado do Amazonas não deixou de detectar focos expressivos de calor na floresta. Foram cerca de 1.500 focos, registrados apenas em 30 e 31 de julho de 2020, sendo que a média em junho teria sido de 2.724. De julho a agosto os focos somavam 7.098 contra 5.318 registrados em julho de 2019.

Tantos números, se traduzidos em imagens e sentidos, significam a tristeza de ter o fogo se intensificando pela floresta afora, árvores em chamas, labaredas enormes iluminando a trágica paisagem, o cheiro de carne assada, comunidades inteiras de índios adentrando as matas para fugir da morte, o choro, a fumaça, animais carbonizados pelos atalhos, a sede, o abandono, aves assustadas, ninhos abandonados à sorte, a relva queimada, carcaças espalhadas, ações de brigadistas tentando salvar o mato, e, quem sabe, uma lua impassível, distante da consciência dos homens, assistindo a tantos desesperos e silêncios.

Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/Fotos Públicas
Outros incêndios preocupam

Além da Amazônia, durante o mês de julho de 2020, foram registradas queimadas mais intensas no Pantanal do Mato Grosso. Os incêndios atingiram mais de 17.500 quilômetros quadrados de mata na região, devastando e reduzindo sensivelmente espécies de um dos biomas mais importantes do mundo.  

Muito assustador foi ainda o incêndio da Serra da Mantiqueira, entre Minas e São Paulo, também em julho último, quando, na madrugada do dia 17, o fogo atingiu a região do Pico da Serra da Mina, o mais alto pico de São Paulo e o quarto mais alto do Brasil.

Já em agosto, no sábado 15, a notícia era que um incêndio agora estava consumindo o Parque Nacional da Serra da Canastra, centro-oeste de Minas Gerais. No fim desse combate, foram contabilizados 24 mil hectares de devastação da vegetação nativa, o equivalente a mais de 33 mil campos de futebol.

E nem as chuvas que finalmente chegaram em agosto, e nem a frente fria que passou pelo país puderam trazer total alívio às matas brasileiras. Vários lugares continuam queimando.

Foto: Mayke Toscano/Secom-MT/Fotos Públicas
Um alento

Para o homem de bem, desmotivado pela política retrógrada do governo do Brasil e diante da falta de metas e boas estratégias do Ministério do Meio Ambiente, talvez, como alento, restem estas palavras do escritor Darcy Ribeiro*: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os meus fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”

Nota

* Darcy Ribeiro (1922-1997) foi escritor, antropólogo e político, reconhecido internacionalmente por suas propostas de desenvolvimento para a educação no Brasil e por suas lutas pelas necessidades indígenas; também foi ministro da Educação no governo de João Goulart (1919-1976).


A Amazônia e seus rios voadores

Fundamental para impedir o avanço das mudanças climáticas, a Floresta Tropical Amazônica é ainda considerada a maior floresta tropical do mundo. Sua área compreende 5.500 milhões de km2. Isso significa 1/3 das florestas tropicais do planeta.

Seus rios respondem por quase um 1/5 da água doce que deságua nos oceanos, sendo que a umidade que parte da bacia do rio Amazonas atinge e regula até mesmo o clima de países como a Argentina e o Uruguai.  

A Amazônia é reconhecida mundialmente pela sua rica biodiversidade. Suas matas cobrem grande parte do noroeste brasileiro e regiões da Bolívia, Peru, Venezuela, Colômbia, Guiana, Suriname, Equador e Guiana Francesa.

Por emitir grande quantidade de vapores orgânicos a floresta contribui com a formação dos chamados “rios voadores”, massas de ar que se deslocam a regiões como o Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil.

Por rios voadores entende-se também enormes quantidades de água liberada em forma de vapor para a atmosfera. Nuvens transportadas a outros lugares pelas correntes de ar. Chuvas que caem e garantem a vida, inclusive a sobrevivência da própria floresta.

Todo esse processo, porém, depende da preservação da floresta. Cientistas afirmam que, caso a destruição da floresta continue ocorrendo, haverá impactos sobre as chuvas e ainda alterações climáticas, como o aumento da temperatura e a ocorrência de secas rigorosas.


Foto principal: Vinícius Mendonça/Ibama/Fotos Públicas
Mapa do bioma amazônico: BBC Brasil/Arquivo

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