Hoje, entrevista com Frei Betto


Semana das Jactâncias

Evandro Affonso Ferreira

Esta semana é uma semana, digamos, jactanciosa…


Pílula do dia


Perguntas insólitas


Cemitério dos vivos, de Lima Barreto

Jornalista e escritor carioca (1881-1922). Publicou romances, sátiras, contos, crônicas. Autor de vários maravilhosos livros: Recordações do Escrivão Isaias Caminha, Cemitério dos vivos, Triste fim de Policarpo Quaresma, entre outros. Provocou a ira dos meios acadêmicos, escrevendo brasileiro, ignorando muitas vezes as normas gramaticais e de estilo. Sempre se preocupando com os fatos históricos e com os costumes sociais. Escritor-caricaturista se vingando das hostilidades do público burguês. Genial.

O escritor e a liberdade


Entrevista: Frei Betto

Frade da Ordem Dominicana. Teólogo, escritor e jornalista. Mineiro. Militante dos movimentos pastorais e sociais. Coordenou a Mobilização Social do Programa Fome Zero. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Escreveu dezenas de livros, entre eles: Batismo de Sangue (Prêmio Jabuti, Juca Pato). Ser humano especial: primeira grandeza.


Poeta Paladino


Evandro Affonso Ferreira – E as certezas? Vida toda ultrapassamos, se tanto, o pórtico do talvez?
Frei Betto — Talvez. Ou nem isso. Como disse seu Antônio, de 62 anos, na formatura do curso de alfabetização, sem nunca ter ouvido falar de Sócrates, “agora sei quanta coisa não sei”. Por isso a fé me é tão útil, porque me inserta em uma esfera literalmente fabulosa, que me imprime o que mais importa nesta vida – um sentido.

Evandro –É difícil adquirir o hábito de deixar logo de manhãzinha o furor no fundo da gaveta?
Frei Betto — Sim, sou matutino. Jamais escrevo após desaparecer a luz do sol. Acordo muito cedo e, como Pandora, arranco a tampa da jarra e volatilizo todos os males. Medito. A meditação me salvou na prisão e, agora, na quarentena (cf. meu “Diário de quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos” [Rocco, 2020]). Resta a esperança e, como ensinou Santo Agostinho, com suas duas filhas – a indignação, para me rebelar contra toda essa desordem estabelecida, e a coragem, para lutar pela mudança.

Evandro – E quando você se vê num compartimento de reduzidas proporções, cujo nome é pressentimento?
Frei Betto — Melhor, porque me fornece uma direção. A vida é um jogo permanente de opções e, portanto, também o reverso, renúncias. Se o compartimento é muito reduzido, mergulho para dentro de mim mesmo. E me desafogo…

Evandro – Costumo dizer que sou muito afetivo, pegajoso, motivo pelo qual gostaria que Deus fosse palpável. Afinal, procurar Deus é querer apalpar plenitudes?
Frei Betto — Não plenitudes, mas platitudes, como nesta minha

PROFISSÃO DE FÉ

Frei Betto

E se em vez de canto gregoriano
Eu disser pelo pubiano,
Aqui está Deus?

E se em vez de sacramento
Eu disser excremento,
Aqui está Deus?

E se em vez de teodiceia
Eu disser diarreia,
Aqui está Deus?

E se em vez de adorar
Eu disser urinar,
Aqui está Deus?

E se em vez de salvação
Eu disser salivação,
Aqui está Deus?

E se em vez de cruz
Eu disser pus,
Aqui está Deus?

E se em vez de celebrar
Eu disser arrotar,
Aqui está Deus?

E se em vez de Vésperas
Eu disser vísceras,
Aqui está Deus?

E se em vez de batina
Eu disser vagina,
Aqui está Deus?

E se em vez de meditação
Eu disser menstruação,
Aqui está Deus?

E se em vez de prelado
Eu disser pelado,
Aqui está Deus?

E se em vez de perdoar
Eu disser protestar
Aqui está Deus?

E se em vez de procissão
Eu disser revolução,
Aqui está Deus?

E se em vez de sermão
Eu disser tesão,
Aqui está Deus?

E se em vez de Pio
Eu disser cio,
Aqui está Deus?

E se em vez de consagrar
Eu disser lupanar,
Aqui está Deus?

E se em vez de virtude da fé
Eu disser bicho-do-pé,
Aqui está Deus?

Está.
(Deus só nega
O desamor,
E jamais o que criou)

Frei Betto — – E quando o afago se descamba para a obliquidade? Como consertar as empenas do telhado do fraterno?
Frei Betto — Inevitável, porque tudo que é humano é oblíquo. O Universo é feito de curvaturas. E uma palavra significa tanta coisa, como os gestos, que inclusive exige dicionário… O fraterno, para não empenar, tem que apoiar o telhado nas estacas da tolerância e do perdão. Fora disso é se embebedar de amargura no bar da solidão.

Evandro – É possível rastrear lampejos?
Frei Betto — São eles que iluminam nossos caminhos. Nascer é muito solidário, mas viver, como morrer, é muito solitário. São os lampejos que vagaluminam nossos caminhos. Por vezes, incertos. Ainda assim, prefiro não rastreá-los.

Evandro – E quando seus passos não se adaptam de jeito nenhum às probabilidades peregrinas?
Frei Betto — Nem me atrevo ao risco assumido por Raskolnikov, nem cedo do desespero de Madame Bovary. E se há uma autodefinição para os meus passos é esta: “Peregrino da vida, viajo a bordo de um paradoxo”.

Evandro – É possível se precaver tempo todo contra as próprias contradições?
Frei Betto — Jamais, porque muitas delas são sutis ou se apresentam revestidas de celofane (que vocábulo admirável!). Como escreve Guimarães Rosa em “Tutameia”, “Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. (…) De sofre e amar, a gente não se desfaz”.

Evandro – E quando as mágoas se embrenham nas suas entranhas? Como se livrar dos urros do rancor?
Frei Betto — Jamais odeio ou guardo mágoa, rancor. Não por virtude, e sim por comodismo. Aprendi na prisão: o ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra. Já disseram que a frase é do Shakespeare. Pesquisei todo e não encontrei. Então, me apropriei.

Evandro – Você já ensinou seu próprio olhar a refutar angústias e todos os seus apetrechos melancólicos?
Frei Betto — Mineiro como você, procuro avistar além das montanhas. Não me resta tempo para a melancolia. E minha única angústia é a saudade que sinto do futuro espelhado em minhas utopias.


Fragmentos

Difícil dissecar-decodificar silhuetas do abatimento, rastrear dias sombrios. Entanto, nossa ontológica personagem acredita que o esplendor já está a caminho, encontra-se a duas quadras daqui.


Motejos


Livros de minha autoria

1996Bombons Recheados de Cicuta (Paulicéia)
2000Grogotó! (Topbooks)
2002Araã! (Hedra)
2004Erefuê (Editora 34)
2005Zaratempô! (Editora 34)
2006Catrâmbias! (Editora 34)
2010Minha Mãe se Matou sem Dizer Adeus (Record)
2012O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam (Record)
2014Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos (Record)
2016Não Tive Nenhum Prazer em Conhecê-los (Record)
2017Nunca Houve tanto Fim como Agora (Record)
2018Epigramas Recheados de Cicuta – com Juliano Garcia Pessanha ((Sesi Editora)
2019Moça Quase-viva Enrodilhada numa Amoreira Quase-morta (Editora Nós)
2019 – (Plaquetes) – Levaram Tudo dele, Inclusive Alguns Pressentimentos, Certos Seres Chuvosos não Facilitam a Própria Estiagem e Anatomia do Inimaginável.
2020Ontologias Mínimas (Editora Faria e Silva)
2021Rei Revés (Record)


Foto principal

As fotos que abrem este blog pertencem ao meu futuro livro, Ruínas. Passei um ano fotografando paredes carcomidas pelos becos, veredas, ruas do centro, e de alguns bairros paulistanos.

As imagens apresentam uma concretude pobre e miserável, de ruína mesmo, que na sua própria deterioração encontra rasgos inesperados de um refinado expressionismo abstrato – força das paredes arruinadas e das tintas expressivas do tempo. (Alcir Pécora)

Capa: Marcelo Girard

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