As mil peles da serpente

 FREDERICO MORIARTY – Corria o frio inverno de 1920 na Alemanha. A miséria estava em todas as cidades e cantos do país. Os trabalhadores que tentavam reconstruir a nação carregavam sacos de dinheiro recebidos como salário, entretanto tais sacos mal permitiam que se comprasse pão e manteiga. Hitler começa a fazer discursos cada vez mais radicais contra judeus, comunistas, socialistas, liberais e artistas cosmopolitas.

As tropas nazistas em ação

Um líder, uma Nação. Naquele mês o NSDAP ( partido nacional socialista dos trabalhadores alemães, ou simplesmente partido nazista) cria a milícia paramilitar. Os comícios relâmpagos nazistas ocorriam sempre nas cervejarias de Munique. A plateia era formada por prostitutas, michês, desempregados, assaltantes, espancadores de mulheres, larápios e qualquer outro tipo de lúmpen de uma sociedade desagregada. Hitler falava aos seus iguais. Hitler começou a trabalhar aos 53 anos, quando deu o golpe na Chancelaria. Despejando ódio, pregando o terror, os comícios sempre terminavam em pancadaria do lado de fora das cervejarias. O alvo eram mulheres, pobres, judeus, artistas e supostos comunistas. Os camisas marrons cresceram e se tornaram as Tropas de Assalto ( S.A.)e foram a base militar da ascensão nazista. O juramento de adesão falava:

Camaradas, agora vamos juntar até a última força. O coração tremendo, o peito erguido, o punho cerrado, o sangue fervendo. O ódio e a raiva nos movem. Nós temos de vencer. O inimigo tem de ser derrotado. Nós nos mantemos coesos: homem por homem.

Hitler estimulava a milícia paramilitar a espancar e matar os inimigos da Prússia ( comunistas, judeus, ciganos, homossexuais e demais minorias). Nas fileiras desse sub-exército estava a escória da sociedade: desempregados, seguranças de boates, cafetões, artistas fracassados, camelôs, agiotas, lutadores de rua, soldados expulsos da corporação e ex-combatentes da guerra. Sua regra era seguir o lider e bater muito. Se possível, matar. Em 30 de janeiro de 1933 quando Hitler assume o poder, as S.A. contavam com 600 mil soldados. No fim daquele ano eram 4 milhões.

Röhm e Hitler. O ditador matava suas crias

Mas o Führer precisava governar. Aliou -se aos grupos conservadores, ganhou a simpatia de muitos empresários. Estados Unidos, Inglaterra e França deram um presente: as Olimpíadas de 1936. Às S.A. viraram um estorvo. Pudera, uma organização que se vangloriava de dizer que:

Mesmo que o inimigo ainda reaja de forma feroz e busque ajuda até do diabo; mesmo que ele se contorça como uma cobra, cuspindo veneno. Nós não nos deixamos enganar: a tempestade começa, o dia amanhece. Milhões de homens, que querem vencer ou morrer, apresentam-se armados para entrar em ação.

Num ensolarado 30 de junho de 1934, Hitler manda matar Ernest Röhm, o comandante dos camisas marrons. Em pouco tempo as S.A. se esfaceleram. Isso abriu espaço para que a Schtzstaffel ( S.S.) uma Tropa de Apoio e um ramo político do nazismo, além do seu braço armado, a Waffen-SS, se tornassem o segundo ( e mais poderoso) exército alemão.

Símbolo fálico?

Nas mãos de Himmler eles dominaram a mais terrível polícia secreta da história, a Gestapo.As S.S. eram o exercício do terror interno e externo nazista. Foram eles que administraram os campos de extermínio. Especializada em disseminar o terror, estimular a delação e a torturar pessoas sem nenhum julgamento ou defesa, matar indiscriminadamente, as S.S. constituíam a face escancarada do mal. Em 1939, as SS possuíam 1 milhão de soldados e passariam a administrar os campos de concentração. A fixação oral dos nazistas sempre foi retratada por psicanalistas e pensadores. Apesar dos hábitos frugais do Führer ( ele era vegetariano), os nazistas adoravam exibir seus cigarros e suas piteiras. Amavam a águia tomada de símbolos fálicos. A suástica e o símbolo da S.S. também significavam algo ereto. De tanto medo do outro, sempre estavam a afirmar sua masculinidade doentia.Curioso que em 1920 a S.A. ( a precursora da SS) criou um cigarro. O “Sturm Ziigarette”. Literalmente, o cigarro de ataque.

Sturm Zigarette. Só para não judeus

A venda serviria para financiar o movimento. Nazistas fumavam seu próprio cigarro. O Cigarrete financiou e bem. Muitas empresas amavam os nazistas. Empresas como a Porsche, a Volks, a Adidas, a BMW e a Hugo Boss, parceiros desde as primeiras horas, também serviram aos cofres e aos interesses de Hitler. Com simpatizantes nos EUA como a Ford e a IBM a burguesia adorava bradar Heil Hitler! O cigarro lançado em 1921 tinha uma frase interessante abaixo do nome de fantasia: ” anti-semita”. Mas devia ser só brincadeira dos nazistas que colocavam os arianos acima de tudo.

O Duce e o Führer saúdam o desfile tétrico

Outra coisa que sempre impressionava nos nazistas e fascistas eram os desfiles cívicos-militares. Peças de propaganda poderosas.Adolf Hitler resolveu visitar seu amigo fascista Benito Mussolini há exatos 82 anos. Por alguns dias o Führer acompanhou o Duce por cidades itallianas de norte a sul. Num 7 de Maio, os ditadores voltaram à Roma dos Césares. Um desfile cívico-militar demonstraria a força do Lácio para os germanos. Hitler, Mussolini e a alta cúpula dos camisas pretas e dos pardas se posicionaram na varanda do Palácio de Governo. O rei Umberto I era figura decorativa. Tudo começou com os ‘balillas’, a criançada e juventude servil das escolas militares italianas. Fascistas desde o berço, doutrinados como numa prisão. Pequenos marionetes dum estado ditatorial e adepto do terror.

Livro da 1° série italiana. O ” Caminho Suave” Fascista

Durante horas, soldados italianos fizeram continência aos 2 líderes mundiais da direita autoritária. Soldados da infantaria, cavalaria, marinha, aeronáutica, com tanques, blindados, canhões, armas rápidas e de tiro curto. Hitler calculou em meio milhão de fascistas. Saiu de lá e imediatamente assinou o tratado que deu origem ao eixo Roma-Berlim. Meses depois eles se juntaram a Tóquio para criar a máquina de atrocidades da 2°guerra. Dizem que o Führer temia que o poder do Duce fosse maior do que o seu. Seria?Jamais. Os fascistas eram bufões. Pícaros com muito gogó, gestualidade teatral e violência contra comunistas, democratas e minorias em geral. Em verdade, Mussolini tinha no máximo 20 mil soldados.Eles passavam em frente aos ditadores, acenavam com o gestual fascista, seguiam em frente e viravam no primeiro quarteirão à direita. Viravam novamente à direita e saíam atrás do Palácio; ali se trocavam, pegavam novas armas e vestes e seguiam ao quarteirão da frente, viravam à direita e novamente à direita – afinal o nazi-fascismo é de esquerda-, e voltavam a desfilar para seus líderes.O fascismo institucionalizou a mentira. E espancava quem duvidasse da verdade do Grande Irmão. Hoje diríamos que inventaram o desfile fake news, ou como Goebbels o doentio ministro da propaganda e prefeito da Berlim nazista vaticinou: ” uma mentira muitas vezes repetida se torna uma verdade”. E ai de ti se duvidasse.

p.s. o título do post alude ao filme de Bergman sobre a ascensão do nazismo ” O ovo da serpente “. Assista abaixo:

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